COMO A MINHA VIDA MUDOU EM 5 ANOS

Essa é a história de como um jovem do interior do Ceará, pobre e de escola pública fez escolhas conscientes para mudar de vida.

ATENÇÃO: Esse texto não traz nenhuma fórmula mágica. Se você está procurando isso, está no lugar errado!

Eu nasci em Itatira, uma cidade muito pequena que fica no interior do Ceará. Apesar da situação cômoda que vive minha família, ela é pobre. Para conseguir o meu diploma, me tornar um engenheiro de computação, passei por muita coisa, não foi fácil mesmo! Esse texto tem o único intuito de servir de inspiração para pessoas que virão depois de mim. Espero que os próximos parágrafos lhe motivem a seguir lutando pelos desejos de seu coração.

Eu acho que a melhor forma de começar isso será me apresentando, né? Então, meu nome é Alcivanio, falei ali em cima que sou de Itatira. Sou um carinha que gosta muito de ler, sou meio inventivo, gosto de conversar com os meus amigos rindo. A história que eu vou contar para vocês começa mais ou menos em 2011, então procurei uma foto antiga minha, para você saber como eu era na época. Isso vai queimar meu filme para caramba, mas beleza.

Eu sou o sorridente ali em cima.

Feitas das devidas apresentações, vamos ao que interessa, né?

Parte I — Sorte de principiante

Cinco anos atrás eu fiquei muito triste ao saber que não havia conseguido uma vaga no curso de engenharia de computação, pelo SISU, no IFCE de Fortaleza. Minha colocação era péssima, a ponto de nem ter fé alguma na lista de espera. Apesar disso, me inscrevi na lista de espera, pelo simples fato de o esforço ser mínimo.

Para quem não conhece, esse aqui é o IFCE de Fortaleza, ou ao menos a entrada haha :)

O dia da lista de espera havia chegado, eu coloquei todos os meus documentos numa pasta e saí bem cedinho para o IFCE. Todo mundo foi direcionado para a quadra da faculdade. Funcionaria assim: Os nomes iam sendo chamados por ordem de colocação. Se a pessoa estivesse lá, ela iria levantar a mão. Se a minha memória não me deixar mentir, creio que foram disponibilizadas 7 vagas naquele dia para o curso que eu queria.

Ouvi o primeiro nome ser chamado, o segundo, terceiro… Cada mão que se levantava eu ficava um passo mais distante da minha vaga. O sétimo fora chamado. Eu não fui. Saí da quadra no último momento, quando já não havia mais nenhuma possibilidade de eles chamarem outro nome. Quando já estava saindo da faculdade, notei uma fila. As pessoas estavam assinando uma lista onde diziam ter interesse caso uma outra vaga fosse disponibilizada no curso em que estavam concorrendo. Assinei, e saí. As esperanças haviam esgotado.

Existe uma frase clássica de um filme de Hollywood que fala que passamos os momentos felizes sempre juntos de alguém. Eu discordo. A cinco anos eu recebi uma ligação que mudaria a minha vida. Deitado numa rede ouvi meu celular tocar. Um bolsista do IFCE me ligava avisando que “há uma vaga sobrando, você ainda tem interesse?”, e eu meio sem cair na real ainda falei que “sim, tenho interesse. Você quer que eu leve os documentos hoje?”, “(risos) não, vai ser na próxima semana só. Parabéns :)”. Desliguei o telefone e pulei soltando um grito bem contido para não incomodar a vizinhança. "Caraca!!! Eu passei!!!" Eu não estava acreditando naquilo ainda. De fato só fui acreditar no primeiro dia de aula, quando o meu nome estava na lista de presença.

Parte II — Na faculdade

Agora a história vira um mar de rosas certo? Notas boas, sucesso profissional e tal, né? Errado! Eu não fiquei numa colocação ruim no SISU por acaso. Não consegui aproveitar bem o ensino médio, principalmente por dois motivos. (I) A escola onde estudei era pública de interior e infelizmente não contava com um sistema de ensino tão apurado quanto os encontrados nas grandes escolas, que depois fui descobrir maior parte dos meus companheiros de sala na faculdade fizeram parte e (II) eu não dei a devida atenção que o ensino médio merece, em parte por influência do meio. Quando se vive em uma cidade pequena e vindo de uma família pobre não é grande a sua lista de pessoas para se inspirar, de possibilidades para o futuro. Mas quero deixar bem claro que se eu tivesse um mindset legal na época, nenhum desses pontos citados seriam impeditivos/dificuldades.

Beleza, mas o que isso tem a ver com o que você vai falar agora?

Bom, quando eu entrei na faculdade simplesmente não consegui assimilar nada! Eu não fazia a mínima ideia do que os professores de cálculo, física, etc. estavam colocando na lousa. Pra ter uma noção do quanto eu estava mal, eu não sabia o que era uma função! Sim, uma das coisas mais básicas que eu iria precisar. Reprovei em cálculo e física. Quando isso aconteceu eu fiquei muito triste e pensei seriamente em mudar de curso, fazer alguma coisa mais fácil, onde eu me daria melhor. Eu me sentia um impostor, ocupando o lugar de alguém que realmente merecia estar ali. E esse foi o meu maior problema, se sentir um impostor.

Apesar de me sentir mal, algumas coisas me impediram de pular fora do barco. A primeira foram as cadeiras de programação, nessas eu tirava sempre tirava notas entre 9.5 e 10, e isso me deu um gás a mais para continuar na faculdade e aproveitar essas cadeiras. Além disso, consigo ainda destacar dois outros momentos. O primeiro foi quando eu estava estudando para uma prova de Cálculo, já no segundo semestre. Eu não estava conseguindo compreender bem o conteúdo, e pensei seriamente em desistir, pensei em não voltar mais no outro dia. Foi quando eu li uma mensagem rabiscada numa carteira "Não desista, você consegue, vá até o final" seguida de algum texto religioso que eu já não recordo. Pode parecer uma grande bobagem, e talvez seja mesmo, mas foi aquele pequeno texto quase inexpressivo, senso comum, que me deu força para continuar por mais um ou dois semestres. Obrigado pessoa que fica riscando as carteiras com frases motivacionais. Tu salvou o meu curso! É serio! ❤

A segunda coisa que me ajudou a continuar foi uma conversa que tive com um professor lá pelo quarto semestre. A frase motivacional na carteira foi foda, mas não resolveu o meu problema de falta de disciplina com os estudos :( Eu ainda era um aluno muito fraco nas disciplinas de exatas. Naquele semestre eu decidi que no próximo eu mudaria de curso. Já havia até programado com outro amigo da faculdade, que pretendia fazer o mesmo.

Tô entendendo, mas e aí, que papo foi esse que tu levou com o teu professor?

Deixa eu te explicar primeiro que esse cara é professor, mas também é um líder religioso local. Certa feita, já no fim do semestre eu estava saindo de um local de culto religioso. Ele me avistou e me perguntou como eu estava. "Tô bem. A faculdade está indo bem, mas próximo semestre vou mudar para outra faculdade". Ele fez uma expressão de quem não tava entendendo direito "Mas porquê você mudaria para uma faculdade com o sistema de ensino inferior ao da nossa?". Ele fez um curto discurso naquela noite, se me lembro bem era sobre a importância da educação na vida dele. Também falou alguma coisa sobre como Deus o ajudou. Lembro-me que fez bem ouvir aquilo dele. Me fez pensar. A conversa foi interessante professor, obrigado.

Olha eu ali de blusa azul, entre a primeira e a segunda fileira! Essa foto foi tirada mais ou menos na época que eu tive aquele papo com o professor.

Parte III — A escolha da mudança

A conversa havia sido inspiradora, mas nenhuma mudança verdadeira parte de fora. A conversa inspiradora serve apenas para isso, inspirar. Esse texto aqui tem o mesmo intuito. Te inspirar. Agora é que a história vai começar de verdade.

Naquela época eu tive que sentar no chão lá de casa, com um caderno na mão, um livro sobre planejamento pessoal, algumas orações (na época eu era bem religioso) e talvez até umas lágrimas. Eu estava decidindo ali o meu futuro. Decidi que iria dar atenção à faculdade, e tentaria ser uma versão melhorada de mim mesmo a cada semestre. Era a mudança que parte de dentro. Era ali que eu começava a mudar a minha mentalidade. Eu iria deixar de ser o impostor, e passar a ser o cara dono daquela vaga!

Então, mar de rosas agora, né?

Não! Tomei a decisão, agora eu tinha que estudar muito para conseguir melhorar. E como eu não estou aqui pra contar mentiras para você, eu vou ser bem honesto contigo: Eu nem sempre fui o melhor de mim mesmo! As vezes eu escorregava e me dava mal. Mas quer saber? A maior parte do tempo eu consegui dar o melhor de mim. Sabe como? Colocando na minha cabeça que aquilo era importante. Enquanto meus colegas começavam a estudar para as provas uma semana antes, eu começava um mês antes. O resultado final (e honesto) é que eu consegui. Eu consegui ser muito melhor do que o Alcivanio que entrou na faculdade. O segredo é que não tem segredo. Senta a bunda na cadeira e estuda muito, que no final das contas você vai conseguir. E talvez uma última palavra sobre isso, um resumo:

Se você tomar uma decisão, foca nela. Se escorregar não tem problema. Levanta e continua teu caminho. Persiste até o final.

Parte IV — Últimos semestres

Certa feita participei de uma entrevista de emprego onde um dos meus professores da faculdade estavam presente. Fiz uma previsão de que me formaria em um ano, coloquei isso num currículo. Ele leu, e tendo acesso as minhas informações disse algo como "Cara, isso é irreal. Você não conseguirá se formar em um ano. No mínimo precisará de um ano e meio para conseguir cumprir essa carga horária restante". Talvez ele tenha dito isso com todas as boas intenções do mundo. O problema é que quando alguém diz que eu não vou conseguir, eu entendo isso como um desafio. E de fato acabou se tornando um grande desafio.

No meu último ano na faculdade eu fiz 16 cadeiras, com uma média geral que foi aumentando com o decorrer do tempo. Tive que descartar outras coisas da agenda com o passar do tempo, afim de focar mais na faculdade. Ah talvez seja interessante falar que durante esse período eu trabalhava 6 horas por dia, o que tornava o desafio ainda mais interessante.

Aqui a gente se reuniu para comemorar o início do último semestre na faculdade. Eu sou o carinha de branco se achando meio roqueiro fazendo esse gesto com a mão.

Para mim era uma questão de honra conseguir se formar junto com a minha turma. Isso significaria que eu corri atrás do prejuízo. Significaria que eu venci a mim mesmo, me tornei melhor.

Sabe aquele professor que disse que eu não conseguiria? Primeiro, tenho que agradecer a ele, pois quando eu pensava que talvez não iria conseguir, eu lembrava que eu não poderia deixar ele estar certo, e isso me enchia de garra. Além disso, ele ministrou uma das disciplinas do meu último semestre. A minha média final nela foi 9.5 de 10. Viu professor? Deu certo: em um ano!

Significa que foi fácil? Não. Foi difícil para caramba. E eu senti isso na pele, literalmente. O stress oriundo de estar cursando um bocado de cadeira, das demandas do trabalho e dos problemas pessoais me causou um bocado de dores pelo corpo. As vezes eu nem conseguia dormir direito, preocupado com notas e com atingir o meu potencial máximo em alguma disciplina. Tinha vezes que eu mal conseguia dormir, pois estudava até tarde, as vezes acordava cedo demais ou estava só preocupado mesmo.

Por vezes a minha rotina ficou tão louca que eu saia de casa 6:30 da manhã e voltava só 10:30 da noite. Entrava na faculdade de manhã, saía pela noite. E no meio de tudo isso ainda tinha que encaixar o trabalho. Eu sou muito sortudo por haver encontrado empregadores que entenderam a minha situação e me ajudaram, tornando o meu horário ultra flexível! E uma palavra final sobre isso: Valeu a pena sim. O senso de ter se esforçado e conseguido bons resultados é impagável.

Time da Mobills, a empresa onde trabalhei no último ano da faculdade. Eu tô na última fila, terceiro da esquerda para a direita.

Parte V — E agora?

Agora é só mar de rosas! Mentira. Finalmente formado, eu sinto como se a jornada estivesse apenas no começo. Durante a faculdade eu pude ter contato com culturas novas, ideias novas e perspectivas novas. Lembro da frase de um professor do primeiro semestre "A faculdade é o lugar para você encontrar a grande ideia". Eu diria ainda mais, a faculdade é o lugar para você ir de encontro a grandes ideias, grandes pessoas, novos destinos, novos rumos. Então nesse primeiro parágrafo eu quero agradecer ao IFCE, aos professores, aos funcionários. Muito obrigado. Obrigado por todo o tempo que vocês fizeram parte da minha vida, obrigado pelo trabalho transformador que vocês fizeram.

Os meus colegas de sala? Muito obrigado por cada conhecimentos e momentos compartilhados. Sem o apoio e presença de vocês o caminho teria sido diferente. Dizem que se um amigo passa mais de 5 anos contigo, ele já não é mais amigo, é família. É um pouco como vejo vocês: como família. Obrigado.

Joguei um bocado de foto com a galera da faculdade aqui.

Meu obrigado final vai para todas as pessoas que cruzaram meu caminho durante esse período. Tive vários tios, irmãos, mães, pais, conselheiros, etc. Obrigado a todos vocês.

Se você ainda estiver aqui, lendo esse texto, agora eu quero falar para você. Você acompanhou por cima a minha história. Eu passei por muito sufoco para chegar até onde cheguei. Foram crises financeiras, crises pessoais, indecisões, abusos psicológicos e tantas outras coisas. Sinto-me muito orgulhoso de mim mesmo. Sinto como se houvesse finalmente cumprido uma grande travessia. E saí vencedor.

Tá, mas você não ia falar alguma coisa para mim?

Vou sim! Eu quero dizer que se um rapaz de 19 anos consegue começar e terminar essa jornada, você também consegue, independentemente de qual seja a sua jornada. Quero que você sinta orgulho de você mesmo. Está pensando em abrir uma empresa? Vai em frente, e não desista. Tá pensando em sair do interior e começar uma faculdade? Você tem esse sonho? Pois invista em você mesmo. Se organize, planeje e corra atrás! Seja lá qual for o seu sonho, eu tenho certeza que se você se esforçar e tiver muito foco, você irá conseguir. E foco não é algo sobre-humano, qualquer um consegue ter.

Realmente a vida é generosa com quem vive sua Lenda Pessoal

— O Alquimista, Paulo Coelho

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Muito obrigado :)

Computer Engineer + iOS Engineer. I am interested in Swift, Kotlin, Firebase, Data Structures, ASO & On Solving Real World Problems.

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